Life

The 88 year old, grumpy and moody lady.

7 Abril, 2020

Estou em casa à 25 dias. Não beijo o meu namorado, não abraço os meus amigos, não estou com a minha família à 25 dias. Não faço nada fora de casa à 25 dias. Comecei por dizer que este maldito vírus, esta maldita pandemia me tinha tirado aquilo que eu mais gostava e prezava. Hoje, 25 dias depois de apenas falar com as paredes que me rodeiam, de não ter os abraços do costume para amparar as lágrimas, as palavras para me consolar a alma, tive de fazer aquilo que evitava à tanto tempo. Analisar a minha vida, os meus dias, aquilo que sou e as escolhas que tomo. Bolas como isto magoa agora. Se no inicio deste texto, comecei por vos dizer que o vírus me tinha tirado tudo o que eu gostava, agora sou quase que obrigada, por mim própria, a assumir que quem me fez perder tudo isto fui eu.

Ao longo destes últimos anos, perdi tantas pessoas sem razões que fizessem assim tanto sentido, que de um momento para o outro dei por mim apenas com uma ou duas almas capazes ainda de me suportar. Hoje ao meu lado posso contar pelos dedos as que ficaram, e mesmo assim continuam a diminuir. Tenho saudades de tanta gente, sinto a falta de tantos sorrisos que deixei para trás. Comecei por me tornar nesta pessoa amargurada, sempre de mau humor, sem paciência para absolutamente nada, que se queixa de tudo e substitui momentos com sapatos, como se isso mudasse alguma coisa do que vai cá dentro. Aqueles que ainda faziam parte da minha vida acabaram por se cansar, porque bolas, até eu me consigo cansar de mim mesma, com todos os queixumes e a premissa do “isto está sempre tudo mal”.

Hoje, tenho 28 anos, falta de pessoas, falta de momentos bem vividos, e ainda vivo na casa da minha mãe. A coitada da minha mãe que ficou por aqui sozinha a aturar todos os meus dramas, os meus gritos e as minhas teimosias e aguentar o barco. Até quando lhe dizia que me chateava que ela me dissesse que a casa era dela, porque eu também aqui vivia. A casa é realmente dela e ela tem razão, eu é que sempre fui muito estúpida para admitir que na realidade nada disto é meu. Tenho 28 anos, trabalho desde o final dos 17 e não tenho, nem fiz nada que valha a pena mencionar. Nada que de me orgulhe. Quando a minha afilhada nasceu, jurei que iria criar com ela a relação que eu tinha com a minha própria madrinha, pois era alguém que eu admirava imenso e via com um brilho nos olhos. Hoje, poucas são as vezes que estou com ela porque há sempre outras coisas sem sentido para fazer. Quando a minha Carina teve o acidente de mota, jurei que se ela ficasse bem, ia estar com ela tantas vezes que ela ia acabar por se cansar de estar comigo, e na realidade, no espaço de um ano e meio (quase) estive com ela apenas uma vez. Quando o meu pai faleceu, jurei tomar conta disto tudo por ele, fazer o papel dele e mais ainda, e quando vejo com atenção, a única coisa que acabei por cumprir foi tratar bem dos nossos animais que sempre foram uma prioridade, mas ainda assim podia ter feito muito mais.

Podia ter feito muito mais. Muito, mas muito mais. Podia ter tornado a minha vida em algo memorável, e nem estou a falar de feitos concretizados apenas para o Instagram, mas para mim, para os meus, para manter os que acabaram por ir. Podia ter aprendido a tocar guitarra, podia ter viajado meio Mundo, podia ter tirado um curso universitário, podia ter feito danças de salão, podia ter cantado, podia ter arriscado mais, podia ter vivido, podia ter amado mais, podia ter aproveitado o meu tempo. Em vez disso tornei-me numa idosa mal humorada de 88 anos cujo dia passa por me queixar novamente de alguma coisa. Não me orgulho disso, e se talvez não fossem estes 25 dias sozinha só com as minhas paredes e as memórias boas de outros tempos, talvez não chegasse a este estado de reflexão. Acho que nem nunca tinha tirado um tempo a sério para isso. Isso não faz de mim melhor pessoa, nem restora nada do que perdi, quanto muito ainda me faz odiar quem sou e quem fui até aqui. Fiquei tantas vezes chateada com coisas tão pequenas e sem sentido que não consigo lembrar-me de períodos de tempo felizes, como a viagem a Inglaterra, as ultimas férias com o Pai, o ultimo jantar de família com toda a gente.

Alguém uma vez me disse que nunca ninguém iria amar aquilo que eu sou. Até à data, achei que era uma coisa horrível de se dizer a alguém, mas agora, olhando tudo para trás, podia ter encarado esta frase como um aviso do caminho que estava a levar, do próprio caminho que eu estava a traçar a mim mesma com todos os meus comportamentos escolhas, em vez de apenas criticar aquilo que foi dito. Não sou eu que sou difícil de amar, o que eu faço é que se torna difícil de aguentar. Podia ter mudado tanta coisa desde aí. Podia ter aprendido a lição e podia ter crescido com a situação, mas em vez disso quis acreditar que era eu a vitima no meio de tudo, pondo a culpa constantemente nos outros. Perdi tanto e tanta gente, que hoje em dia não sei como ainda ficou algo e alguém. E chegar a esta conclusão magoa. E muito. Podia ter feito tanta coisa diferente, podia ter crescido tanto.

Como é que se dá a volta a isto? Como é que se recuperam cerca de 15 anos perdidos em lamurias, amuos e manias da razão? Como é que se perde a identidade da velhota de 88 anos casmurra e rabugenta? É isso que as minhas paredes, companheiras de desabafos dos últimos 25 dias não me conseguem dizer. Elas não têm resposta e sinceramente eu também não. Desperdicei tempo, vida, pessoas e ocasiões. Não há muito a fazer quanto a isso. O próximo passo? Não faço ideia, ainda estou demasiado desapontada comigo mesma para tomar qualquer atitude, para avançar para a frente. Afinal, como é que se avança para a frente? O que é que existe à frente? No futuro? Existe sequer um futuro?

  1. Tudo é um começo, desde que pensas em tudo, desde que decides e desde que tomes alguma atitude. E nunca é tarde para melhorares por ti. Nunca!!! Se é tarde para voltares atrás algumas coisas não sabes mas por ti nunca e tarde. Eu cá estarei para o que precisares até para te dizer o que acho sempre. Beijinhos adoro te

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