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Rascunhos para a minha Psicóloga

5 Agosto, 2020

Queria expressar em palavras a confusão que me vai na cabeça. Estou há 47 minutos a olhar para uma folha em branco, sem saber por onde começar, ou na realidade o que escrever.

Eu já sei que sou uma pessoa dramática, que dá muito mais ênfase a tudo o que acontece, quer seja positivo ou negativo, do que na realidade tem. Por vezes penso que devia ter ido para Teatro. Se me perguntarem se eu sou feliz, eu provavelmente direi que não. Não sou feliz por várias razões e por nenhuma em concreto. E já nem falo das coisas que nos deixam naturalmente tristes, como o fim de uma relação, a perda de um emprego, a falta de um familiar e por aí fora. Disseram-me que eu gosto de estar triste e eu, óbvio, fiquei a pensar nisto. Na realidade, a minha melhor concentração acontece quando estou triste, os meus melhores textos acontecem quando estou triste, nos tempos em que trabalhava na loja, as minhas melhores vendas aconteciam nos dias em que estava triste, e na realidade até a casa eu limpo melhor quando estou triste. Mas, não deveria ser ao contrário? Estar mais focada e ter um melhor desempenho quando estou alegre e motivada? Talvez toda a minha mente seja uma maior confusão do que seria suposto ou minimamente normal, ou então, talvez seja eu que a torne assim, complicada e com várias (mas várias mesmo) variantes. Pergunto-me o que diria a minha psicóloga sobre tudo isto, sobre o conseguir ter momentos de felicidade com a bagagem de momentos tristes? Teimosia talvez. Nos tempos em que a visitava 4 vezes por mês, ela sempre me disse que eu tinha muito medo da mudança e que pouco ou nada fazia por isso, talvez por isso permanecesse num lugar onde não me sentia bem completamente sem mudar nada. Hoje em dia, possivelmente teria de lhe fazer 8 ou 12 visitas por mês para conseguir explicar todos os acontecimentos e a maneira como a minha cabeça reage aos mesmos.

Penso muitas vezes: estarei a ficar maluquinha ou estou apenas a dramatizar mais do que é preciso?

Posso fazer-lhe essa pergunta quando finalmente lá voltar, com a esperança de que ela me diga que isto é tudo perfeitamente normal (coisa que eu sei que não vai acontecer).

Penso também se serei bipolar ou algo dessa categoria, pela quantidade de vezes que estou bem e choro desalmadamente no mesmo dia. Seria uma hipótese válida, certo? E se no fundo eu for só, e simplesmente uma pessoa triste, que tem tendência para esvaziar o copo quando o mesmo já está meio? Era assim tão mau? No meio de tantas perguntar sem sentido nenhum, vou-me recordando da falta que a Drª Sandra me faz, mesmo que me dissessem o contrário, e de como me sabia bem desabafar com alguém externo, que não dava opiniões nem conselhos pessoais ou inspirados nas suas próprias vidas, de como me sabia bem falar ali e deixar o assunto ali, naquela cadeira rodeada de livros com as mais variadas histórias.

Ser uma pessoa triste poderá ser assumido como estar constantemente triste? E se isso não nos transformar numa má pessoa, qual é o mal? Podem dizer-me que há tanta gente a passar por coisas piores que eu, que não têm uma casa para morar, que estão doentes, que passam por milhares de situações mais graves do que as minhas e ainda estão de pé e não andam por aí triste e a lamentar-se por isso. O ponto aqui é que eu tenho plena consciência disso, e talvez possa melhorar o lamentar-me constantemente até porque haja paciência para quem tem de me ouvir, mas quanto ao sentir-me triste cá dentro, faz assim tanto mal? Se eu não me queixar disso, faz assim tanto drama? Talvez seja teimosia de ser ou estar triste (também me disseram isso e também me deixou a pensar, óbvio), porque no fundo eu tenho muito boa gente á minha volta, um trabalho de que gosto, os meus animais, a “minha”casa e saúde. Porque é que não me é suficiente para deixar de estar triste?

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