Life

Querido Pai…

18 Maio, 2020

Pai, tal como sempre fiz, queria ligar-te a contar as coisas do dia-a-dia, e correndo o risco de soar como uma criança de 5 anos a dizer aos Pais que conseguiu completar um puzzle ou vestiu correctamente as meias nos dois pés da maneira correcta, hoje venho escrever-te para te contar as coisas boas que aconteceram no Sábado passado, até porque estou cansada de apenas te contar coisas más ou negativas. Nem tudo é mau aqui em baixo. E tal como te disse, este Sábado decidi colocar as tristezas da minha vida num cantinho de lado no meu coração e olhar para as coisas com olhos de ver, e fazê-las como gente grande, sem choros pela primeira vez em algum tempo e com vontade de fazer mais.

Comecei por limpar o quintal que tanto estimavas e querias arrumadinho, relva cortada, ervas tiradas, chão varrido, o normal… e de seguida, numa tentativa de me mostrar que também sou criatura para fazer as coisas sozinha, aspirei a piscina, passei por todo  aquele processo que tantas vezes te deixou a dizer asneiras para o ar, procurei no fundo da minha memória as coisas e a maneira como fazias, os truques do G, e meti mãos á obra. Sem praguejar, sem chorar, sem me irritar. Ainda deixei cair o tubo lá para dentro e tive de o ir buscar com a água ainda gelada, mas Pai, ficou linda, com a água transparente, sem lixos, tal como sempre gostaste de ver. Com a confiança de ter feito aquela tarefa sem ajuda e como deve de ser, meti mãos á obra e fui arranjar as telhas do telheiro da avó. Aquele que com tanto amor lhe construíste de novo. Quando chover novamente, logo te digo se fiz um bom trabalho, mas fiquei a modos que orgulhosa por estar a arranjar aquilo para que não chovesse ali e não estragasse o resto. Acho que só pelo facto de lá ter ido de escadote na mão, já te coloquei um sorriso no rosto. Quero acreditar que sim.

Mais tarde, convidaram-me para ir aprender a fazer pão caseiro. Contrariamente ao meu passado, aceitei simplesmente e fui. Acabámos por fazer pães grandes, bolinhas pequenas, pão com chouriço, uma pizza e bolinhos de limão. Certo que não fui eu fiz a massa, mas meti mãos à obra sem medos ou mariquices, e fiz. Ias gostar de ter provado, garanto. Estava melhor que qualquer produto de padaria, mesmo as mais caseiras. Partilhámos todos os produtos que ali fizemos e estivemos a conversar entre amigos até ás 11 da noite, onde ainda partilhámos um belo prato de coelho feito no forno a lenha. Sim Pai, eu comi coelho. Pouco mas comi, e acredito que estejas tão surpreendido quanto eu, mas na realidade neste Sábado tão produtivo, reparei que o grande passo, foi trocar os meus habituais e certos “nãos” por simpáticos “sim” e simplesmente ir, fazer, conhecer, experimentar e viver. Talvez o não ter o que quero, seja a porta aberta para ter exatamente aquilo que preciso, ou pelo menos para conseguir ter consciência disso. Não estavas cá para ver tudo isto, mas acredito que tenhas sentido aqueles minutinhos de paz no meu coração em muito tempo.

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