Life

Os dois lados da Avenida

11 Junho, 2015

Sempre foi um desejo cá dos meus, poder passear calmamente pela Avenida da Liberdade sem a pressa de chegar aos hoteis e salas de convenções para as ditas das formações que dizem respeito á profissão que sigo. Normalmente, quando passo de manha, é sempre a correr á procura do espaço destinado antes que comece, obviamente para não chegar atrasada ou então passo a correr o caminho de volta para apanhar o raio dos autocarros. É uma correria só. E até de pensar nisso fico cansada.

Mas ontem, o fofinho do namorado, que muito atenciosamente tentou melhorar as minhas férias nem que fosse por apenas um dia, lembrou-se de me levar a jantar a um belo de um KFC (sou hiper mega fã), e por isso lá fomos parar ao Colombo ás 9 da noite. Não estando ainda satisfeito com o mimo de fazer aqueles quilómetros todos para me levar a comer comida de plástico e repleta de gorduras que eu adoro tanto, aproveitou  o facto de em Lisboa estar uma noite excelente e fomos passear pela Avenida da Liberdade, tal como um belo par de turistas que se prezem. Ora, pois fiquei encantada, como já era de esperar. Lojas e mais lojas e pessoas muito bem vestidas, a representar exactamente a classe social que predonima por aqueles lados, rodeados de hoteis, teatros e restaurantes onde nem sonho entrar. Realmente a Avenida da Liberdade tinha tudo para ser perfeita. O problema é que no meio disto tudo, quase ninguém repara em tudo o resto. O resto este que acaba por adormecer nas escadarias destes edificios todos elegantes e destinados aos ricaços que vêm passar as suas férias. A quantidade de sem-abrigos que vi naquele espaço que é apenas uma pequenissima porção de Lisboa, foi de partir o coração. E não estamos a falar de pessoas com mau aspecto sequer, mas de pessoas que muito provavelmente apenas não têm um espaço onde dormir, onde viver. É realmente triste ver aquele cenário e absolutamente ninguém reparar, ou fingirem que não reparam, porque não é nada com elas. Podia ver-se as ruas da Avenida a serem decoradas e preparadas para as marchas populares que devem ter acontecimento este fim-de-semana e eu não pude deixar de reparar, que todo aquele espalhafato ocultava a miséria que se pode sentir nos cantos daquelas ruas.

Mas apesar desta situação me ter partido o coração, houve ainda outra que me deixou triste com o futuro desta cidade e deste País. Pouco depois de sair de um Starbucks e na subida da Avenida de volta ao Marquês de Pombal, acabámos por ser abordados por dois individuos em alturas diferentes, em que um dos mesmo nos queria vender droga e o outro que lá deve ter achado que tinhamos mau aspecto ou coisa que o valha, queria comprar droga. Se me disserem que isto é uma coisa normal de acontecer, juro que vos bato! Se tivesse força para isso acho que espancava aquelas duas criaturas sem dó nem piedade. Acabei por ficar um pouco incomodada com isto, até porque tudo aconteceu a poucos, mas mesmo muito poucos metros da policia que por ali andava e eu penso: Onde raio vamos nós parar a este ritmo de degredo? Onde ninguém repara na miséria e no descambar completo de uma sociedade. Somos assim tão inconscientes que conseguir por um travão nisto tudo e apenas deixar andar.

Pensei que ontem á noite ia conhecer uma avenida e acabei por conhecer duas. Quase como se de uma entidade com dois rostos se tratasse e mais uma vez fiquei com vergonha do que a humanidade se tornou e daquilo que ainda se vai tornar.

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