Life

Luto

18 Dezembro, 2017

Luto. Toda a gente o vive, toda a gente o encontra alguma vez na vida, mas na realidade ninguém o espera, ninguém o compreende, ninguém está preparado.

Eu não estou. Nunca estive. Cheguei a sonhar com a morte do meu Pai, em pesadelos, tempos antes desta ter realmente acontecimento, e quando acordou as palavras “Adoro-te” saíram-me automaticamente da boca, acompanhadas de um abraço apertado quando ele me veio dar o meu beijinho de “Bom Dia”, como era já um habito. Acordei com medo e o facto de o ver mais uma vez naquela rotina que em tempos me deixava irritada por acordar tão cedo, confortou o meu coração. Hoje, instintivamente ou não, acabo por olhar para o relógio do telemóvel por voltas das seis e meia da manhã como se o esperasse a entrar mais uma vez pela porta do meu quarto completamente apressado e atrapalhado por ter de chegar ao trabalho e ver se a carrinha iria pegar desta vez. O meu beijinho não faltava. Hoje falta.

“Nada está realmente morto, se olhar-mos bem.”

Talvez agora faça sentido. Ele não está aqui. Não vai gritar comigo por gritar com ele. Não me vai socorrer quando tudo corre mal, ou simplesmente quando entro em pânico. Não vai voltar a segurar-me o cabelo quando o meu corpo falhar e a minha tensão descer outra vez. Não me vai sorrir quando lhe contar que fiz uma boa venda lá na loja. Não vai voltar a dizer que tem orgulho em mim. Mas já o fez, já viu, já o disse. Ele já não está, mas continua aqui. Em mim, que sou parte dele, no que me ensinou, nos conselhos que me deu, nas vezes que socorreu e nas vezes que me abraçou. Nas memórias, boas ou más, ele continua aqui. E é meu. O meu Pai.

A minha dor não é maior do que a de ninguém que já tenha passado pela perda. Cada um tem a sua forma de lidar com ela, e por isso mesmo é que o luto não pode ser explicado, não pode ser algo que se treine para suportar. Não faz parte de nós saber perder o que amamos.

Eu perdi alguém que amava muito, que respeitava. Alguém com quem queria aprender ainda tanto. Talvez não esteja a conseguir lidar com isso, talvez sim. É difícil dizer.

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