Life

G is for Letting Go.

27 Novembro, 2020

Estão neste momento a cortar as árvores da minha rua. Árvores essas das quais eu não gostava, que estavam descontroladas no crescimento, que tapavam casas e candeeiros e danificavam os passeios com as suas raízes gigantes e as casas com o pó que libertavam principalmente nesta altura. Eu não gosto destas árvores. Ponto. Não gosto e reclamo delas desde há 7 anos para cá, desde que o descontrolo, o lixo e os danos começaram a ser visíveis. Mas agora que oiço o barulho do motosserra e as oiço cair no chão uma por uma, não consigo deixar de ser um aperto cá dentro. As árvores não eram de todo a nossa coisa preferida nesta rua onde o sol se habitou a espreitar durante todo o dia, mas acabaram por ser um bocadinho nossas também. De certa maneira é como se quiséssemos que elas saíssem daqui, mas por outro lado já estamos habituados a elas. E vamos ter saudades, suponho. Não que alguém tivesse qualquer uso das mesmas, pois nem para sombra nos passeios serviam propriamente dito, mas simplesmente eram nossas e custa deixar ir. Dá para perceber?

Na realidade, esta conversa sobre as árvores é quase como que a metáfora perfeita para tudo na minha vida. Sou uma pessoa com imensa dificuldade em deixar ir, em largar, em esquecer. As coisas boas, as coisas más…os objetos. Costumo guardar coisas que não fazem sentido, apenas porque não me consigo desfazer delas ou por receio de que se o fizer, a memória que associei á mesma também se desfaz ou simplesmente desaparece. Tenho parvoíces como o ultimo dossier dos tempos de escola onde escrevi uma dedicatória a cada um dos meus colegas (com os quais não tenho qualquer contacto), a ultima caixa de chocolates preferidos que o meu Ex me deu (e é a primeira vez que assim o trato) e até escrevo estas palavras ao som da banda que fui ver pela primeira vez com uma amiga (com quem também já não tenho contacto). Enquanto escrevo, vou respirando fundo e olhando para a árvore mesmo em frente á minha janela do quarto, aquela que por norma é a mais nova de todas e que só assim o é, porque o Pai arrancou a anterior com a carrinha do trabalho enquanto estacionava de marcha-atrás. É uma árvore com história, e só porque envolve o meu Pai já é a minha preferida. É também aquela que fotografei durante anos durante as manhãs de orvalho onde as gotas da humidade descansavam, e aquela onde vi inúmeros pássaros descansarem das suas longas viagens. É minha. E não é. Apenas estava aqui, apenas me habituei a ela, e mesmo reclamando, custa-me que daqui a uns minutos já não exista, já aqui não esteja. Tenho dificuldade em lidar com a perda, com a mudança, caso ainda não tenham dado por isso. Ainda que os últimos 3 anos tenham sido apenas um aglomerado disso mesmo.

Sou uma pessoa de extremos, e normalmente, para me facilitar o processo de cura, que eu sei que nunca ficou completo de vez nenhuma, costumo desligar por inteiro. Neste momento era muito mais fácil não estar aqui em casa a ver as árvores a serem arrancadas do seu habitat desde pequenas, e chegar apenas quando o processo estivesse concluído. A complexidade do meu cérebro nestas situações ainda me surpreende por se tornar tão difícil sem necessidade. “São árvores, se não gostavas delas, porque reclamas?”, “É só um namorado, se reclamavas com ele, porque é que agora estás triste?”, “É só um abraço, se achavas lamechas, porque é que agora choras?”. Podia continuar nisto o dia todo, não fosse o meu servidor bloquear por achar que estou por aqui á demasiado tempo.

Para minha surpresa, a única perda, mudança que não afeta por completo o meu estado ansioso, é a Morte. Especificamente a morte do meu Pai. Porque por mais que chores, por mais que grites e aches que podes mudar tudo, não podes. Não há nada a fazer. É um facto. Foi e é a única mudança que eu deixei ir, que deixei fluir. A única que não me levou a rasgar fotos para não sofrer, a afastar pessoas para não saber, a fugir de sítios para não ver e a única que bem pelo contrário falo todos os dias, faço questão que toda a gente saiba quem foi o meu Pai, o que fizemos, o que conhecemos e como ele era a melhor pessoa do Mundo. São memórias que não doem apesar de não existir a possibilidade de criar novas. Suponho que sejam maneiras diferentes de ver as situações. Talvez as árvores da minha rua, tenham o propósito de me aborrecer profundamente para agora sentir falta delas, como tudo na minha vida.

Já perdi o fio á meada com este texto. Já nem sei qual o objetivo do mesmo. São apenas árvores, mas acho que hoje me mostraram mais uma coisa que tenho de mudar na minha vida. Aceitar e deixar ir. Mesmo com o medo, com a dor, a perda. Só deixar ir.

  1. Como sempre deslumbra-me a tua profunda aptitude analítica posta por escrito, quase que contrariando a imagem que crias em convívio, onde és sempre humilde no discurso, nunca sobrepondo a tua verdade ou ego.
    És linda!

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