Life

Fotocópias das já existentes cópias.

13 Abril, 2020

Nestes últimos dias, com muito pouco para fazer e muito poucas pessoas com quem falar, visto a que a minha vontade de isolamento vai mais além do que aquela que nos está a ser imposta, tenho passado algum tempo a percorrer os feeds das redes sociais, especialmente do Instagram, pois é onde estão maior parte das pessoas que sigo e não conheço de lado nenhum. Talvez pela situação em que nos encontramos, eu pelo meu estado de espírito que está mais negro do que as nuvens chorosas hoje no céu, dei-me conta de que apesar de continuar a percorrer feeds e contas diferentes, era quase tudo igual. O mesmo género de fotos, o mesmo género de estilos, o mesmo género de decorações e inspirações, o mesmo género de roupas e de poses. O número de contas que seguia, sem saber muito bem porquê, porque na realidade até não me diziam assim grande coisa, era por volta dos 1.500. São 1.500 pessoas, que eu nem sabia porque seguia. Tudo dentro do mesmo género e dentro do mesmo estilo. Fotocópias umas das outras, de cópias já existentes. Dei por mim a olhar para 10 contas de pessoas diferentes que na realidade me pareciam o mesmo.

Decidi olhar para o meu próprio feed desta rede social. E na minhas 2 mil fotos, deparei-me com aquilo que ainda não tinha reparado. Uma imensidão de fotos, especialmente de há um ano para cá, onde a fotocópia de tudo o resto sou eu. Onde os sorrisos verdadeiros e as pessoas da minha vida, começaram a faltar para dar lugar a looks e a visuais completos. Onde comecei a notar a falta de amor e carinho nos rostos das fotos lá postadas, a começar logo pelo meu.

Gosto de me vestir bem, gosto de estar apresentável para qualquer situação, mas não vou fazer disso profissão. O meu Instagram não é a minha profissão. E muito menos aquilo que quero para mim. A quantidade de vezes que me chateei com alguém ou comigo mesma só porque não tinha a foto perfeita para colocar naquele dia com aquele look ou aquele cabelo. A quantidade de tempo que perdi a fazer posses que parecessem descontraídas, mas que tinham tudo menos descontracção no rosto, no corpo, na postura. E depois de analisar todas as fotos que lá estão, comecei também a dar-me conta que as melhores de todas são aquelas em que estou feliz ou acompanhada pelas pessoas de quem gosto e que partilharam aqueles momentos comigo, independentemente da quantidade de gostos que a foto possa ter. E sinto muito a falta de ter aventuras, conhecer coisas novas ou simplesmente ter as pessoas que amo ao meu lado, mesmo que não tenhamos fotos para o Instagram.

Vai daí, e olhando mais uma vez para aquele número redondo de pessoas que seguia e não conhecia de lado nenhum, comecei a apagar aquilo que não me interessava, aquilo que não me inspirava, aquilo que também não me fazia bem, aquilo que me parecia manipulado e irreal e por fim aquilo que neste momento era já tóxico para mim. Tal como vos disse, seguia ao todo 1.589 pessoas e contas. Hoje sigo apenas 648. Abri uma a uma, vi conteúdo a conteúdo. Tive de o fazer em 4 dias, pois tantas eram as pessoas que eliminava por não ter interesse no conteúdo ou naquilo que tinham digitalmente para oferecer, que o Instagram acabou por achar que era erro e simplesmente bloqueava tudo. Apaguei imenso e sinto que ainda poderia apagar mais. Deixei as pessoas e contas que me transmitiam felicidade e boa inspiração, positividade e que apresentassem mais do que um molho de fotos de looks e tutorais de como vestir ou o que comprar. Não é disso que eu preciso, e é disso que me quero afastar. Não quero ser apenas mais uma fotocópia de todo o produto já existente e mastigado das redes sociais, não preciso de o ser. Tenho um trabalho que adoro e sou feliz com ele. Vou continuar a gostar de me vestir bem, mas não quero sentir a pressão de colocar uma foto diária só porque sim, quando ás vezes o visual até nem é grande coisa. Quero sim, partilhar as coisas que me fazem feliz, e se isso significar ter um feed desorganizado, confuso e sem um tema especifico, então que assim o seja, porque na realidade nem me importa assim tanto. Neste momento só quero que o meu Instagram possa transmitir a felicidade da vida que eu espero ainda ir a tempo de ter, e da qual me esqueci que precisava durante algum tempo.

Eu não sou uma influencer, nem muito pouco quero vir a ser. Aliás, acho que nunca tive muito jeito para isso na realidade. Posso mostrar coisas que usei e que gosto e que possa recomendar a alguém, mas não vou passar os meus dias a conhecer novidades de propósito para isso. Nem quero. Posso fazê-lo talvez na minha página de Instagram profissional relativa ao meu trabalho como maquilhadora, e aí sim, a ideia é mostrar o meu trabalho e influenciar, mas também mostrar ao Mundo como maquilhar me faz feliz. Porque faz. Aqui poderemos manter o nível de comercio que se espera. Mas na minha página pessoal, eu não quero ser apenas conhecida pela pessoa que tem 222 pares de sapatos (que já não tenho, porque não preciso de tudo e muitos já nem usava – dei ou vendi) e roupa até não dar mais. Quero voltar a ser a pessoa que mostrava o que vivia e não que vivia para mostrar. Deixou de fazer sentido, se é que alguma vez o fez. Recordo-me de ser uma pessoa que perdia 2 segundos a tirar uma foto à paisagem bonita que estava a ver e 20 minutos a realmente a olhar para ela e a apreciar. É isto que quero de volta, e é isto que preciso para mim outra vez.

Essência e Humildade.

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