Life

Candeeiros de rua.

19 Agosto, 2020



Estou em mais uma das minhas muitas, e agora diárias já há 10 meses, viagens de autocarro. Desta vez a caminho de casa depois de mais um dia com a agência a meio. Com a máscara no rosto, tal como o resto dos passageiros, aprecio a vista da janela, que agora me parece diferente. Talvez não tivesse dado por isso anteriormente, ou talvez não ligasse a pormenores, mas tudo está diferente lá fora. As cores, as paisagens e até os carros a passar por nós. Passámos por um monte, onde a cor verde manda por completo. Para além da predominância desta cor, existia também um aglomerado de candeeiros altos de rua, virados cada um para seu destino, como se não soubessem para que lado se virar. Imaginei, sossegadinha no meu lugar, que se tratasse de mais um loteamento de habitações que foi por agua abaixo antes de ter sequer um tijolo no sitio. Tudo o que restou foram aqueles candeeiros para contar a história do que um dia seria o sonho de alguém, um objectivo a cumprir. Ali ficaram e ali continuam. Talvez nem cumpram a sua actual função, talvez nem iluminem os caminhos que naquele espaço foram delineados, mas continuam ali, de pé como que há espera da companhia de alguém, como se estivessem a aguardar pelo propósito da sua criação. Eram provavelmente mais de 40 candeeiros ali plantados sem destino, e olhei para cada um como se estivesse ali sozinho, naquele espaço triste esquecido por todos e mais alguns. Não posso deixar de fazer a associação da minha pessoa com aqueles candeeiros, estando também eu aqui “plantada” sem função ou proposito, rodeada de outros 40 como eu e ainda assim sozinha.

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