Life

As calças das relações

16 Setembro, 2019

Existe uma expressão nesta língua Portuguesa que se assemelha a algo como “quem usa as calças lá em casa sou eu”. Ouço isto desde pequena, e se puxar pelos cordelinhos da memória, quase que consigo associar a relação dos meus pais a isto. O pai fazia o que queria sim, mas quem dava apalavra final era a mãe. Mas tudo no bom sentido, numa ideia sem violência, nem extremos como hoje em dia é tão popular. Naquele tempo, no meu tempo, quem usava as calças tomava conta do lar, a nível emocional. Quem tratava dos jantares,das roupas e da limpeza do lar, tinha 3 centímetros a mais na última palavra decisiva sobre se realmente se pintava a parede de preto ou não. Eram bons tempos. Comandos e comandantes com inocência sem fazer nada para criar guerras de categoria três.

Hoje, essa expressão, do meu ponto de vista, uma volta de 360 graus e passou a ter um significado completamente novo, e sim, agora com tons autoritários e quase tão obrigatórios que causam uma pontada de medo. As calças são agora usadas por quem quer decretar mais do que todos os outros, ade um ponto de vista a esquecer o respeito e as necessidades do outro. Este é um caso e depois, como não podia deixar de ser, temos as calças levadas ao extremo em que a agressão é a posição de superioridade.

Observo casais que conseguem levar esta coisa das “calças lá em casa” de uma forma tão desportiva como a dos meus pais, o que me transporta a anos luz do meu passado e me faz sorrir sem razões aparentes para quem me olha. Tenho saudades de os ouvir nas suas lutas gregas para chegar a consensos onde a mãe ganhava quase sempre, e se assim não fosse, hoje teria pinturas abstractas no meu quarto com paisagens de praias e golfinhos por ali a cirandar.Nem sempre as calças eram usadas como apenas um meio de manter uma ideia, mas também a normalidade. Tantas vezes vi estas calças serem usadas como arma de coragem e protecção, que se tornaram inspirações, e me obrigaram a dizer em voz alta, que quando fosse grande iria usar as calças assim, e seria orgulho de quem ensinou.

Actualmente sou mais uma Maria de saias, a pensar nas mais alternadas maneiras de vestir as calças e manter tudo na ordem que devia.

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