Life

Ao melhor Pai do Mundo. O Meu.

9 Outubro, 2017

O meu pai costumava dizer que eu vivia num Mundo de fantasia, que tudo para mim era muito fácil tendo em conta a maneira como eu metia os olhos nos acontecimentos, pois tudo para mim era fácil de resolver, tudo se podia fazer, bastava querer.  Passava o tempo a dizer-lhe que gostava de fazer isto, aprender aquilo, experimentar tudo e mais alguma coisa só porque sim, e de cada vez ele me dizia que eu falava muito e ele não via nada, porque na realidade eu não fazia mesmo nada. 25 anos se passaram em que poucas foram as horas dedicadas às coisas que realmente gostava de fazer e vontade não faltava, coragem e arranjar tempo para deixar de ser preguiçosa é que era pouca. “Para o ano talvez faça.”

“Já se passaram quase duas semanas desde que, tal como eu gosto de dizer, correndo o risco de parecer uma criança de 5 anos que não consegue encontrar justificação para a morte de alguém, Deus te levou para construir boas casas para as pessoas boas que moram lá em cima, porque precisava de alguém que as soubesse fazer como só tu sabias e que as construísse tão bem como tu fazias. Por mais ridículo que possa soar, é nisso mesmo que quero acreditar, até porque desde o dia 28 deste negro Setembro que na minha cabeça está tudo um pouco confuso e aquelas respostas com soluções rápidas para os problemas Mundiais que dizias que eu estava sempre a arranjar, não são assim tão simples e nem sequer me ocorrem na mente.

Verdade é, que com tantas confusões para resolver dos últimos dias, poucos foram os dias em que consegui chorar aquilo que deveria ou pelo menos aquilo que eu esperava chorar, o que me lembra a quantidade de vezes que me abraçavas enquanto as lágrimas me caiam pelo rosto abaixo e com um riso baixinho me dizias que eu era a pessoa mais sensível que conhecias e que passava a vida a chorar. Ainda hoje penso que te vou ver descer aquele quintal, todo empoeirado a reclamar com mais uma máquina que não funciona e que te fazia falta, com os braços no ar, a resmungar como se fosse o fim do Mundo. Acredites ou não, é uma lembrança que vou guardar com carinho. Aliás, todas elas, todas as coisas boas e todas as coisas más. Os berros que chegámos a gritar um ao outro, a quantidade de vezes, extremamente ridícula, que eu te ligava durante o dia para te falar das coisas mais absurdas que me pudesse lembrar, só porque sim. E raras eram as vezes que não atendias ou não ligavas de volta.

Não sei se te cheguei a dizer a quantidade certa de “amo-te” ou “adoro-te”, mas eras sem dúvida o meu melhor amigo e cheguei a dizer em voz alta, mais do que uma vez, que eras um dos Homens da minha vida. O meu braço seguro, o meu tudo. Sempre tive medo de te desapontar com a mais pequena coisa, e tudo o que dizias era regra, excepto talvez quando me mandavas ou pedias para tirar as ervas do quintal. Mas sempre te fui uma filha fiel e se pudesse pedir alguma coisa hoje, seria para dizer-te mais uma vez o quanto gosto de ti.

Ainda não tenho a cabeça em ordem e sinto-me agora insegura em relação ao futuro, mas sinto cá dentro que devo continuar as tuas pequenas construções e invenções por aqui. Eras um Homem grande e bom, a quem muitos poucos podiam apontar o dedo e só tu sabes tudo o que carregaste aos ombros até poderes agora descansar em paz. Foste o melhor que poderias ser e eu tenho o maior dos orgulhos em ti.

Obrigado pelos ensinamentos, pelos gritos, pelos abraços, pelas boleias, pelas noites há minha espera e pelos beijinhos de bom dia durante 25 anos. Obrigado por todas as peripécias que fizeste por mim, e por todas as vezes que me socorreste por coisas realmente graves ou pelas mais simples. Obrigado por me ensinares a conduzir e por toda a paciência, mesmo quando eu era uma destruidora de carros e coleccionadora de multas em teu nome. Obrigado por todos os passeios, férias e coisas que me levaste a ver. Obrigado por tudo e mais alguma coisa. O meu agradecimento, tal como a minha saudade vão continuar a ser eternos. ”

Ao melhor pai do Mundo. O meu.

  1. Olá, Vânia.
    Como te compreendo, minha querida! Revejo-me em ti, há três anos atrás, quando perdi o homem da minha vida: o meu querido pai.
    As emoções foram muitas! Ás vezes nem sabia o que sentia… Pura e simplesmente parecia impossível.
    Com o tempo percebemos que é real. E dói, dói muito! Mas aquilo que ouvimos dizer do tempo, é verdade: ele ajuda. Com ele a dor acalma e começamos novamente a sorrir, a viver,… Mas as saudades, essas são para sempre e aprendemos a lidar com elas.
    Agarro-me à ideia de que ele está feliz e que a felicidade dele aumenta quando eu estou feliz. E assim, eu lá vou sendo feliz…
    Beijinhos e um abraço bem apertado.
    Muita força!

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