Life

A rapariga á porta do Metro.

11 Janeiro, 2021

Este vai mesmo com o título em Português. Porque é ao seu povo que dirijo, porque é ao país que quero passar a mensagem.

Voltei a queixar-me aos amigos sobre o fim do mês que nunca mais chega, a falta que este mês já me faz o ordenado certo que me cai na conta no último dia de cada um. Voltei a queixar-me. E queixei-me.
Saí do escritório sem vontade de sentir todo aquele frio que, achei eu, se faria sentir cá fora.  Apanhei um autocarro e entrei na estação do metro. A habitual, a de sempre. Em frente às escadas estava uma rapariga com um ar normal, vestida normalmente, a olhar normalmente para quem passava. Devia ter a minha idade. Conforme me aproximei, ela olhou para mim com a maior humildade e talvez um pouco de vergonha nos olhos e perguntou-me se a podia ajudar com qualquer coisa.  Ela não me pediu dinheiro,  mas quando me viu a agarrrar na minha mala para me dirigir á minha carteira , proferiu as seguintes palavras “pode ser comida” mais depressa do que alguém chama por “socorro”. Não tinha comida comigo. Tirei da minha carteira 0.52€. Era o que tinha comigo. Quase que senti vergonha de só ter aquilo para lhe dar.
E agora aqui se põe a questão que muitos vão colocar: então e se era para droga? Então e se era para tabaco? Então e se….?
E se nada. Se for, paciencia.  Mas nem toda a gente pede ajuda nas ruas para esse efeito. Nem toda a gente mostra a humildade que eu vi nos olhos daquela alma. Daquela rapariga que poderia estar ali por não ter outra opção.  A verdade é esta meus caros: o nosso país não está bem e devido a toda a situação actual a probablidade é que fique pior ainda. Rendimentos obtêm-se de trabalho, se não há trabalho como é que há rendimento.  Podemos todos tentar roubar o vizinho ou a pessoa mais distraída numa estação do metro,  ou podemos pedir ajuda. Foi o que aquela rapariga fez.  Pediu ajuda a quem pudesse ajudar. Nem toda a gente parou, nem toda a gente ouviu. Eu escolhi acreditar nela. Se isso faz de mim mais idiota, então que faça.  Hoje era ela, amanhã posso ser eu. Nada é certo para ninguém.  E dei por mim a contar a quantidade de vezes que chorei a minha conta bancária num só dia. A quantidade de vezes que chorei lágrimas atrás de lágrimas porque os meus amigos afinal não eram meus amigos. A quantidade de “deixem-me ir ter com o meu pai” que eu disse porque alguém me partiu o coração.  Senti-me estúpida.  Senti-me fútil. Mas também me senti agradecida. Pelo tecto que tenho para dormir todos os dias, pela comida que tenho na mesa todos os dias, pelas pessoas que ainda tenho, pelo meu emprego, pela liberdade que tenho em fazer o que quero. Senti que me queixo de bolsos cheios quando existe uma multidão de pessoas pelas ruas do nosso país que lutaram o mais que conseguiram para não ter de pedir ajuda, mas que inevitavelmente têm de o fazer. Aquela rapariga que me pediu comida podia ser dona de um restaurante que fechou as suas portas á conta da pandemia. Podia ser tantas coisas, ou podia não ser nada, mas aquele olhar eu não esqueço tão cedo. Aquele olhar que eu acredito que era de alguém que não tinha outra opção.  Porque assim teria sido obrigada para sobreviver.  Se isso faz de mim ingénua, que assim seja. Porque eu prefiro continuar a acreditar na bondade e na humildade das pessoas. E aquela rapariga á porta do metro mudou o meu dia, ainda que eu não tenha mudado em grande coisa, o dela.

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