Life

10º dia de Isolamento

23 Março, 2020

Chamem-lhe o que quiserem. Isolamento, quarentena, prevenção, contenção… You name it. Já vamos no 10º dia e eu já não sei ás quantas ando. Não gosto disto, não gosto da sensação de estar a perder tudo e mais alguma coisa. Estou dentro de casa (abençoada-mente tenho um quintal grande para apanhar ar) e já não posso com estas paredes, com estas cores, com estas coisas.

Tenho saudades de me vestir bem, de usar os meus saltos, de ver a minha família de trabalho e a família de sangue também. Tenho saudades de passear, de jantar fora (coisa que nunca prestei muita atenção), de namorar. Tenho saudades dele. Sinto a falta de pequenas coisas, das que nunca quis saber. Sinto falta de mim. Sinto mais falta do meu Pai.

No meio destes 10 dias sempre com as mesmas coisas e os mesmos espelhos comecei a odiar-me a mim, à minha pele, ao meu cabelo, à minha roupa, à minha decoração, e sem dar por isso comecei a olhar com mais atenção para as fotos espalhadas pelos quatro cantos do meu quarto. Sempre fui pessoa de fotografias impressas, de ter os bons momentos aqui bem pertinho dos olhos e da memória. Agora, olhando com mais tempo e pormenor, reparo que sinto a falta de todos os sorrisos de cada foto, incluindo o meu. Sinto falta das minhas pessoas, daquelas que eu disse que ia manter por perto este ano, daquelas a quem eu prometi ver mais vezes.

Não era isto que tinha pensado para o meu 2020, aliás, acho que provavelmente não era isto que toda a gente tinha planeado para 2020. Somos a geração da conexão, ainda que a nossa conexão humana tenha uma muleta sempre atrás chamada de tecnologia. Estamos habituados a estar juntos, onde queremos e quando queremos e daí talvez isto ser tão estranho e difícil para muito boa gente. Para mim torna-se mais difícil por estar sozinha em casa só com a mãe. Não me levem a mal, adoro a minha mãe, mas não era só ela que eu queria aqui pertinho e em segurança.

Continuo a trabalhar a partir de casa, por isso ainda vou tendo algo que fazer durante o dia, mas ainda assim sinto que me falta o resto. O movimento, a acção, os bom dias que tanto gosto de dar pessoalmente, de sorrir a todos e de viver um bocadinho. Fazer coisas novas.

Não tenho grande vontade de fazer maquilhagens, de ver filmes (até porque a televisão só se lembra de passar filmes com romance lamechas, e eu nem sequer tenho o mais-que-tudo para dar um abraço), de fazer fotos para o Instagram ou de comer (o que é estranho pois a maior parte das pessoas ganham mais fome por estarem em casa). Portanto não tenho grande vontade para grande coisa. E só lá vão 10 dias disto.

Se não vos escrever por aqui nos próximos tempos é porque provavelmente nem vontade para isso eu tive. O que não me estranha muito. Até lá, só vos posso dizer, Boa sorte e mantenham-se seguros para ver se esta gaita passa de uma vez.

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